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Um aroma tão velho quanto o tempo: A história dos óleos essenciais

Digno de realeza: Rituais, adoração e romance no antigo Egipto

Durante a era do antigo Egipto, o perfume e os óleos naturais tinham um papel importante nos serviços religiosos. Eram usados para limpar o ar e fazer oferendas aos deuses.

Para os egípcios, o perfume e a higiene pessoal eram tão importantes tinham um deus, Nefertem, dedicado a isso mesmo. Os ricos eram muitas vezes enterrados com incenso e óleos perfumados - aliás, um recipiente de perfume ornamentado foi encontrado no túmulo do Rei Tutancámon.

Os óleos essenciais eram geralmente reservados para as divindades e realeza, pois a despesa implicada em criar estas primeiras decocções de plantas era avultada.

Kyphi era um tipo de incenso comummente usado em rituais, sendo também consumido como medicamento. Não há uma receita precisa, mas poderia incluir ingredientes como mirra, acácia-branca, canela e menta. Eram os sacerdotes egípcios que faziam estas misturas e são considerados os primeiros perfumistas do mundo.

Apesar dos Egípcios terem usado ingredientes naturais semelhantes aos usados hoje em dia para criar unguentos e incenso, o perfume que obtinham seria muito menos fragrante. Ainda não havia sido descoberta a destilação e, ao invés disso, prensavam os óleos de plantas e sementes ou demolhavam-nos em líquidos e gorduras durante largos períodos de tempo.
 

À conquista do mau ar: Curar doenças na antiga Grécia

Nos tempos da Grécia e Roma antigas, perfumes e incensos continuavam a ter o seu papel em funerais e cerimónias religiosas. Em 2007, a fábrica de perfume mais antiga do mundo foi descoberta no Chipre - a casa mitológica de Afrodite, a deusa do amor. Acredita-se que esta fábrica fornecia a templos e adoradores aromas que os levariam até mais perto dos deuses que reverenciavam.

Ao contrário do antigo Egipto, na era Romana os perfumes estavam disponíveis em maior escala. Aromas mais baratos vinham em vasos de cerâmica, enquanto os perfumes mais caros eram colocados em frascos trabalhados de porcelana que podiam ser comprados em lojas ou bancas da especialidade.

Tanto os Romanos como os Gregos estavam ainda longe de descobrir a destilação, por isso extraíam os aromas através da queima dos materiais ou demolhando ingredientes como rosa, violeta ou jasmim em óleo.

Mas o perfume não era apenas usado para que as pessoas cheirassem bem; os Gregos e Romanos acreditavam que o "mau ar" espalhava doenças. Hipócrates - o pai da medicina moderna - escreveu que fumos perigosos podem ser transportados pelo vento e causar sérias doenças. Acreditava-se que ao usar a fumigação e encher o ar de aroma, se conseguia prevenir que as doenças se espalhassem.

 

A descoberta da destilação: Água perfumada e farmacologia na antiga Pérsia e mais além...

A descoberta da destilação deu-se na Pérsia (Irão nos tempos de hoje). É aqui que o médico Avicena descobre o processo químico por trás da obtenção de perfumes sem base de óleo. Esta descoberta permitiu aos Persas produzir água de rosas, uma mercadoria pela qual o Irão ainda hoje tem fama.

Os alambiques - o equipamento usado para a destilação - foram aperfeiçoados pelos cientistas da época, sendo uma grande adição à farmacologia, bem como à perfumaria. O seu uso permitia a criação de substancias médicas chave, como o álcool, que eram usadas para tratar maleitas e doenças.

Apesar deste salto na ciência, no mundo dos perfumes a destilação ainda era principalmente usada para criar águas perfumadas. Só mais tarde os métodos de extração permitiram que os óleos essenciais como os conhecemos hoje fossem produzidos.

O perfume continuou a ser um símbolo de estatuto na Pérsia. A realeza e membros da alta sociedade eram muitas vezes pintados mostrando frascos de perfume e flores, de modo a demonstrar a sua riqueza e importância.
 

O surgimento do boticário: Pomanders e primeiros farmacêuticos na Idade Média e Renascimento

A Idade Média e o Renascimento viram uma mudança no que toca à forma como se usavam os perfume e óleos essenciais. No Oeste, o Cristianismo ensinava que a aplicação pessoal de aromas era excessiva e que o uso para este propósito devia ser recusado.

No entanto, a tradição de usar aromas durante a adoração permaneceu, com o incenso a ser queimado e dedicado a Deus. Acreditava-se que os cheiros maus, que não faltavam nesta época, eram ofensivos a Deus e, com base nos ensinamentos de Hipócrates, atribuídos a doenças.

De modo a repelir o "mau ar", usavam-se amuletos ao pescoço, com o nome de pomanders, que continham óleos, incenso e fragrância. A receita usada pela Rainha Maria I de Inglaterra incluía ingredientes ainda hoje usados, como resina de benjoim, calamites, água de rosa e láudano - bem como ingredientes de origem animal e que hoje caíram em desuso, como âmbar cinza, almíscar de veado e civeta.

Os boticários especializados abriram ao público para fazer e vender misturas fragrantes e, muitas vezes, com cheiros bem fortes. Estes primeiros perfumistas eram muitas vezes considerados também farmacêuticos, sendo nesta época que muitos benefícios médicos e terapêuticos foram atribuídos a plantas e especiarias. Os boticários usavam a potência dos ingredientes naturais e criavam novas misturas, usando ingredientes acabados de descobrir proveniente do mundo inteiro.
 

Óleo essenciais prontos a usar: Perfume como sinal de estatuto e sedução no Iluminismo

Nos séc. XVIII e XIX, o perfume tornou-se numa forma de sedução, símbolo de riqueza e nobreza. Aqueles que o podiam comprar, usavam-nos sempre que podiam - aplicando-o na roupa, corpo, cabelo e acessórios, bem como banhando-se em águas perfumadas. Aliás, o perfume era tão essencial que a nobreza o levava em requintadas malas de viagem a que chamavam nécessaires de voyage onde guardavam as suas numerosas garrafas e misturas.

Maria Antonieta via a sua mala de viagem como algo essencial e ficou famoso o facto de ter encomendado uma réplica da mesma quando planeava fugir de França, durante a Revolução Francesa. Com a descoberta dos germes no séc. XIX, a importância de tomar banho foi enfatizada. Os aromas fortes para disfarçar maus odores já não eram assim necessários e o tipo de perfume foi mudando de acordo com isso.

Começou a existir uma preferência por cheiros mais frescos e florais, em vez dos almíscares de cheiro forte, derivados de animais.

A descoberta, na época, de ruínas da antiguidade também influenciou a moda, encorajando o uso do estilo do antigo Egipto, Roma e Grécia, o que influenciou também os frascos de perfume deste período.

 

Decide-te: Óleos essenciais para cura e bem-estar

Os óleos essenciais há muito que são usados pelos seus benefícios na mente, corpo e alma. No entanto, o termo "aromaterapia" é relativamente moderno e apenas foi cunhado no início do séc. XX por René- Maurice Gattefossé. Foi Gattefossé que descobriu as propriedades calmantes da lavanda, ao mergulhar a sua mão numa vasilha de óleo de lavanda após a ter queimado.

Desde então, a prática de usar combinações de óleos essenciais e massagem para desencadear benefícios mentais e físicos, viu um ressurgimento de popularidade. Há centenas de cursos, especialistas, livros e conteúdos multimédia sobre aromaterapia, o que torna difícil avaliar de forma precisa a ciência e reivindicações por trás da mesma. Podemos ver a aromaterapia como um termo geral, sob o qual se juntam uma grande variedade de crenças.

Muitos atribuem-no à ideia de que os óleos essenciais podem afetar o humor, enquanto outros vão mais além e acreditam que a aromaterapia e medicinas alternativas têm o poder de curar todo o tipo de doenças. Não obstante, os óleos essenciais podem ser encontrados num vasto leque de produtos graças aos benefícios que transmitem ao corpo, mente e alma.

 

Começou nas luvas: O humilde começo da indústria do perfume

Como já percebeste até aqui, a perfumaria e os óleos essenciais são parte das nossas vidas há milénios - mesmo que as formas como se usam tenham mudado e desenvolvido. Hoje em dia, os óleos essenciais estão comummente ligados à perfumaria - e tudo começou com luvas...

A cidade Francesa de Grasse é considerada internacionalmente como o centro mundial do perfume. Esta pequena cidade do Sul de França tem estado na linha da frente da perfumaria já há séculos, começando tão cedo quanto no séc. XV, quando Ermentaire Tossenti montou o seu boticário para vender misturas de óleos essenciais e ingredientes naturais. A cidade é afamada pelo seu microclima, que a torna perfeita para cultivar plantas e flores fragrantes usadas em perfumes.

Grasse foi também o local de origem da crescente indústria do fabrico de luvas do séc. XVI em diante. Muitas das pessoas da cidade trabalhavam em curtumes (processamento de couro) e no fabrico de luvas da melhor qualidade, que eram exportadas para o mundo inteiro. Mas a indústria tinha um lado menos simpático - a cura do couro cheirava muito mal.

Usando as matérias-primas fragrantes que tinham à sua disposição, os habitantes de Grasse desenvolveram aromas e perfumes para disfarçar o cheiro desagradável do couro. Conforme a indústria do fabrico de luvas entrou em declínio, os empresários mais perspicazes começaram a desenvolver a indústria do perfume na cidade.

No final o séc. XIX, Grasse era reconhecida pela qualidade dos ingredientes e perfumes que produzia. As grandes casas de perfume, como J.B. Dulac, J.L Fargeon e Lubin haviam-se estabelecido em Paris e eram populares entre os mais ricos.
 

Perfumes de celebridades, sintéticos seguros e o fornecimento ético: A perfumaria moderna e mais além...

À medida que a química e a ciência foram avançando ao longo do séc. XX, o mundo do perfume foi revolucionado. A descoberta de métodos de fabrico de substâncias como o sintético vanilina, permitiu a criação de fragrâncias mais baratas para o mercado de massas. Isto também significou que os perfumistas conseguiam mimetizar aromas de materiais naturais que anteriormente seriam impossíveis de extrair da sua fonte - como o lírio do vale.

O perfume tornou-se disponível para que todos o pudessem usar. Um dos primeiros perfumes a ser criado com a adição de fragrâncias sintéticas foi o Jicky. Foi também o primeiro perfume abstrato - ou seja, que tinha por base mais do que um óleo essencial ou nota. Jicky abriu caminho para o espectro de fragrâncias variadas que se podem hoje desfrutar pelo mundo inteiro.

Hoje em dia, a perfumaria está de novo em mudança. A saturação do mercado e a proeminência de "perfumes de famosos" levou a uma crescente procura por fragrâncias exclusivas e personalizadas. Ao mesmo tempo, os consumidores e empresas estão cada vez mais conscientes das suas responsabilidades ambientais e sociais

- e com isto veio uma verdadeira vontade de comprar de forma ética os seus ingredientes, bem como de ter criações que possam ser rastreáveis.

E o que vem a seguir?

Os óleos essenciais acompanham-nos há milénios, e são peças importantes no que toca à nossa percepção do mundo - a essência da vida. Seguem-te, com certeza, para onde quer que vás, mas até onde, isso já é contigo...

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