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Soapbox: Soluções para a Poluição de Plástico

                       

Por Lia Colabello, Directora da Plastic Pollution Solutions
 

Lia Colabello criou a Plastic Pollution Solutions para aconselhar os consumidores em como podem ter impacto em questões críticas no que toca aos oceanos. Com 12 anos de experiência internacional junto de várias organizações pela preservação dos oceanos, neste artigo, Lia partilha a sua posição sobre a poluição causada pelo plástico, soluções para esta crise e o que podemos fazer como indivíduos. 

A situação parece preocupante. Estudos indicam que o equivalente a um camião de lixo é despejado nos oceanos a cada minuto.

Mais de 5,2 triliões de peças de plástico podem sem encontradas a flutuar no oceano, e não sabemos quantas mais podem estar submergidas e quantas outras mais já estarão depositadas no fundo do mar. Estima-se que 700 espécies marinhas são afetadas pela poluição de plástico, quer por ingestão quer por emaranhamento. Os cientistas estimam que, em 2050 , poderá haver mais plástico do que peixes no oceano (por peso).

Há mais de um século que o plástico se encontra entre nós, e a quantidade utilizada em produtos e embalagens segue uma trajetória ascendente que está a causar uma crise de resíduos a nível mundial. Os países sem uma infraestrutura de gestão de resíduos são os mais afetados. Embalagens de plástico são despejadas em lixeiras, sendo levadas pelas chuvas até aos oceanos, em canais de água que se transformam em verdadeiras correias transportadoras de lixo. Uma vez no ambiente marinho, o plástico começa a fragmentar-se em peças cada vez mais pequenas, impossíveis de recuperar.

Crianças ao redor do mundo estão a crescer nestas lixeiras e a brincar nestas águas infestadas por plástico. Nunca conhecerão um tempo, recordado pelos seus avós, em que os resíduos se degradavam de maneira natural. Agora, as suas paisagens, especialmente no Sul Global, estão a ser tomadas pelo plástico descartável. Embora recolectores de lixo ofereçam algum alívio destas pilhas de plástico sempiternas, em várias partes do mundo não existe um sistema de recolha e depósito de resíduos a larga escala, continuando assim a contaminar o planeta.

Já vi vídeos de aldeões, em ilhas remotas, a atirar sacos de lixo cheios de plástico para o oceano por não terem espaço em terra para depositar os seus resíduos. Este plástico acaba por dar à costa, enchendo as zonas costeiras de lixo e poluindo zonas de pesca. As gerações futuras correm o risco de aprender que o plástico vem do mar e ao mar regressa.
Já vi vídeos de aldeões, em ilhas remotas, a atirar sacos de lixo cheios de plástico para o oceano por não terem espaço em terra para depositar os seus resíduos. Este plástico acaba por dar à costa, enchendo as zonas costeiras de lixo e poluindo zonas de pesca. As gerações futuras correm o risco de aprender que o plástico vem do mar e ao mar regressa.
Este é o trágico legado da economia do plástico, em que para ganhar um, outros terão necessariamente de perder.

Os químicos encontrados no plástico estão diretamente relacionados com doenças crónicas nos humanos. Atualmente, cientistas investigam o impacto do plástico na cadeia alimentar. Foram encontrados microplásticos no plâncton, em marisco, em peixes e em várias outras espécies marinhas. Também se detetou a presença de plástico no sal, cerveja, água da torneira e outros items consumidos de forma muito regular.

A crescente crise da poluição de plásticos levou vários governos a pressionar as empresas com regulamentação destinada a dar início a uma nova economia circular. Uma recente diretiva da União Europeia exige que,até 2030, todas as embalagens no mercado europeu sejam reutilizáveis ou recicláveis. A U.E. está também a trabalhar em políticas que desafiem os países membros a diminuir o consumo de plástico descartável, especialmente sacos, garrafas, palhinhas, copos e tampas de café, talheres e recipientes de comida para levar. O Reino Unido também anunciou que tem preocupações semelhantes e que está a avaliar os próximos passos a seguir.

A regulação na Europa surge na sequência do veto de importação de “lixo estrangeiro” na China. Esta nova política, que entrou em vigor em janeiro de 2018, já começa a ter repercussões globais, com o plástico que anteriormente seria enviado para a China a ser depositado em portos por todo o mundo. Esta situação pode levar a que este lixo seja enviado para outros países do Sudeste Asiático, menos preparados para lidar com o influxo dos resíduos de plástico de todo o mundo.

Há várias soluções para esta crise, e estão todas interligadas. Políticas e legislação são as soluções mais eficazes. Regulamentações como as que descrevi anteriormente, são essenciais para mudar a economia do plástico alcançando um modelo circular e sustentável. As empresas têm, mais do que nunca, a oportunidade de envolver-se em soluções para a poluição por plástico, uma vez que são estas mesmas empresas que estão na linha da frente no que toca a pesquisar e implementar mudanças a nível de produtos, embalagens e até mesmo design. Os consumidores têm o poder de exigir quer às empresas, quer aos governos que estas soluções sejam postas em prática. De facto, os consumidores estão a exercer a sua influência ao apoiar negócios que demonstram um compromisso com a sustentabilidade. Aproximadamente 87% dos consumidores afirma que comprariam e seriam leais a marcas que mostrem preocupações sobre o seu impacto ambiental. Num estudo levado a cabo pelo GenZ, uns impressionantes 94% dos participantes acredita que as empresas deveriam abordar temas sociais e ambientais. As empresas estão atentas a esta tendência.

Melhorar a gestão de recursos é também um ponto crucial. Falamos de uma crise de resíduos, mas, na verdade, se olharmos para os resíduos como um recurso, então passamos a olhar para o nosso “lixo” de maneira diferente. Iniciativas de reciclagem regionais, adotando práticas de uma economia circular, como sugerido pela Ellen MacArthur Foundation, ao mesmo tempo que utilizamos material reciclado proveniente dos nossos resíduos em todos os produtos e embalagens de plástico, são essenciais para passarmos de um processo linear para uma economia circular. Generalizar estas práticas vai garantir que nenhum país, independentemente do seu grau de desenvolvimento, sofra o fardo de ser a lixeira do mundo.

Sugiro neste texto enormes alterações ao sistema para as quais todos podemos contribuir. Cada um de nós tem uma poderosa esfera de influência que pode ser ativada, quer seja para reduzir a utilização de plástico, levar as empresas a assumir a responsabilidade por práticas mais sustentáveis, promover práticas circulares de gestão de recursos ou trabalhar junto da comunidade e assumir o compromisso de utilizar menos plástico descartável no nosso dia-a-dia. Ao início pode parecer assustador, mas concentra-te a mudar um hábito de cada vez, como trazer o teu próprio termo na próxima vez que pedires um café. Assim que estabeleces uma nova rotina, avança para o próximo objetivo, como levar os teus próprios talheres ou saco de compras. Tudo se trata de mudar os nossos hábitos e adotar a nova economia do plástico. Sempre que levas o teu próprio saco, termo ou talheres, estás a enviar uma mensagem a esse negócio de que o plástico descartável é desnecessário. Se cada um de nós se tornar num exemplo para os nossos amigos e famílias, temos a possibilidade de cavar a nossa saída desta crise de resíduos mundial antes que seja demasiado tarde.

Este artigo foi escrito para o Soapbox por Lia Colabello, Diretora da Plastic Pollution Solutions em fevereiro de 2018.
A liberdade de expressão é um direito que deve ser preservado. Dedicamos as nossas páginas Soapbox a outras vozes que nos contam as suas visões do mundo.

 

"Cada um de nós tem uma poderosa esfera de influência que pode ser ativada"

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