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Mais do que sustentabilidade: Fornecimento de óleos essenciais e sintéticos

O termo compras ética é algo que ouves bastante por aqui, mas o que significa afinal?

Será que significa sustentabilidade - um termo que, por definição, significa que tudo se mantém igual - ou será que as compras éticas exigem mais das empresas no séc. XXI, talvez encorajando o desenvolvimento, empreendedorismo e inovação?

A compra de ingredientes é hoje bem mais complexa do que alguma vez foi, ainda mais no caso dos óleos essenciais. A procura por produtos fragrantes é maior que nunca - são usados em tudo, desde líquidos de limpeza a eau de toilette – o que significa que a procura é, muitas vezes, maior do que a oferta. Peguemos no exemplo da baunilha, que se encontra em tudo quanto é gamas de sabor e aroma, mas que, como produto natural, tem a sua quantidade limitada - ainda mais se se quiser assegurar alta qualidade, comércio justo e responsabilidade ambiental.

O dilema é o mesmo que muitos negócios enfrentam e para o qual há apenas umas quantas soluções. As empresas que querem fazer o correto para com as comunidades suas fornecedoras, o ambiente e os consumidores, têm apenas duas opções:

• Investir tempo e recursos dedicados à estratégia de compras, por forma a assegurar que cada passo da cadeia de distribuição é transparente e funciona da forma correta.

• Quando não é possível comprar um ingrediente de forma segura ou ética, investir em sintéticos seguros ou adaptar os produtos para reduzir a dependência daquele ingrediente.

Os perfis seguintes dão uma visão dos desafios, complicações e complexidades envolvidas na compra de ingredientes aromáticos usados nos perfumes e produtos que já conheces e adoras.

 

ROSA DE DAMASCO Rosa Damascena

O óleo de rosa é usado em perfumaria pelos seus efeitos atraentes e, nos cuidados de pele, para acalmar. Tal como sugere o nome, a rosa de Damasco é originária da Síria, mas a sua casa é hoje no coração das montanhas no sul da Turquia. A região com maior cultivo de rosa damascena, é seguida de perto pelos rivais cultivadores Búlgaros de Kazanlak, o vale das rosas.

Na Turquia, a indústria das rosas depende do trabalho migratório. Tradicionalmente, o povo Cigano chega todos os anos para colher as rosas à mão. Nos anos mais recentes, a este povo juntam-se Sírios que podem atravessar a fronteira. Trabalhadores vindos de Raqqa e Homs, entre outros, telefonam à família para os descansar quanto à sua segurança, enquanto chegam e acampam nas imediações dos campos, prontos a apanhar flores ao nascer do sol de cada dia.

 

SÂNDALO Santalum album & Santalum

Talvez mais conhecido pelo seu aroma rico e doce, o sândalo tem um lado negro...

O sândalo é cobiçado há milénios, usado em rituais e preparações um pouco por toda a Ásia, onde era queimado para incenso. Também encontra o seu lugar em produtos para o consumidor final, tais como fragrâncias, cosméticos e aromatizantes.

A árvore do sândalo é especial e só cresce de forma parasítica, agarrando-se às raízes de várias plantas enquanto cresce. Normalmente, uma árvore de sândalo selvagem precisa de cerca de 25 anos para desenvolver o seu valioso tronco.

Existem dois tipos principais de sândalo: Australiano e Indiano. Infelizmente, as reservas naturais de ambos têm vindo a decrescer, sendo os esquemas de cultivo de sândalo na India poucos e muito espaçados. A sua raridade combinada com o valor de mercado, significa que o sândalo está envolto em problemas de tráfico, ilegalidades e mesmo fraudes financeiras. Encontrar uma fonte confiável e sustentável pode ser complicado e este assunto precisa de ser tratado com diligência e cuidado.

 

OUD Aquilaria Sinensis

A árvore Aquilaria sinensis foi responsável pelo nome de Hong Kong - traduz-se por "porto fragrante" - e, ainda assim, apesar da grande riqueza que ali existe, o ultimo vestígio desta herança está sob ameaça devido ao apetite mundial por oud.

O oud cresce nas fendas (ou cicatrizes) da árvore Aquilária. As árvores eram naturalmente marcadas pelas garras de ursos e tigres, ficando com fendas que acabavam por apodrecer; esta espécie de fungo, quando colhido e queimado, emanava um fascínio irresistível.

Sendo destilado em óleo essencial, é um dos materiais mais caros no mundo da perfumaria. O aroma misterioso e amadeirado é popular há séculos no Médio Oriente; a sua popularidade recente nos países Ocidentais e seus perfumes, está a levar as poucas árvores que restam à extinção. Crescem ao longo do sudeste asiático e as novas plantações estão com dificuldade em acompanhar a demanda por este fungo fragrante.

 

OLÍBANO Boswellia Carterii

As árvores Boswellia carterii são das mais resistentes da terra. Crescendo em zonas que são sinónimo de condições duras - Etiópia, Somália, Iémen - são o ponto de origem de um dos ingredientes aromáticos mais antigos da história.

Apesar das dificuldades que estas árvores enfrentam, providenciam salvação a muitos. Uma pequena fenda na casca do seu tronco permite que a árvore "chore". São formadas lágrimas de resina dourada, que são coletadas e vendidas no mercado como olíbano.

Daqui, é usado em incenso ou destilado para fazer óleo usado no mercado da perfumaria. As pressões do mercado para obtenção destas lágrimas podem encorajar a que a resina seja colhida em demasia, por isso é necessário tomar medidas cuidadosas para assegurar a saúde a longo prazo destas árvores, bem como das pessoas que sustentam. Não é fácil, quando guerras e secas extremas ocorrem com frequência nestas zonas.

 

CUMARU Dipteryx odorata

Os feijões de cumaru têm aroma doce e apimentado, sendo usados muitas vezes ao lado da baunilha para criar produtos e aromas doces dignos de sobremesas - mas não comas demais! Nos Estados Unidos o uso do feijão de cumaru é restringido no que toca à alimentação, pois contém alta concentração de cumarina e poderia, potencialmente, interferir com alguma medicação. Mas não te preocupes, seria preciso consumir pelo menos 30 feijões de cumaru para aproximar dos níveis tóxicos.

Os feijões crescem nas profundezas da Amazónia Brasileira, onde são coletados pelos Kayapo, um povo indígena para quem os feijões são fonte de rendimentos e uma boa razão para cuidar das preciosas árvores de onde provêm.

 

GERÂNIO Pelargonium graveolens

Pode-se pensar que cultivar óleos essenciais é um luxo e que, ao invés disso, deveríamos usar a terra para cultivar alimentos. À primeira vista, pode parece um ponto válido. Mas se "cheirares" a situação mais de perto, vais encontrar comunidades onde o reverso é a verdade. À sombra do Monte Quénia, agricultores contratados por grandes supermercados europeus para cultivar vegetais são deixados ao sabor do vento.

Promessas vazias e mercados voláteis significam que as pilhas de couves, cenouras e batatas acabam por ser desperdiçadas quando o mercado muda ou cai. Por outro lado, a folhagem verde e inócua do gerânio pode vir dar uma ajuda. A crescer livremente entre as plantações de alimentos, mantém as pestes afastadas, requer pouca água ou cuidados e é uma rede de salvação para estes agricultores que estão expostos às forças do mercado.

 

Baunilha Vanilla planifolia

A baunilha. Encontramo-la em gelados, perfumes, velas e em ambientadores para o carro. É um aroma tão comum que passou a significar algo aborrecido, rotineiro, pouco aventureiro - mas a história por trás das suas vagens está longe de o ser. No Uganda, a gula mundial está a deixar os agricultores com um sabor amargo na boca.

Os agricultores de Comércio Justo que cultivam esta preciosidade acordam todos os dias para descobrir que mais sementes foram roubadas das suas plantações. Muitos são apanhados em conflitos violentos, resultando, não raras vezes, em assassinatos. Esta especiaria altamente cobiçada atingiu um pico no mercado com o seu preço a aumentar por vários motivos, sendo uma das razões principais a mudança nos padrões climáticos.

O desejo por este doce aroma é insaciável; mundialmente são consumidas mais de 3 mil toneladas ao ano. Mas o processo de cultivo e extração da baunilha é longo e extenuante, podendo chegar aos 5 anos por semente. Com uma procura tão intensa, muitos são aqueles com vontade de ir por atalhos, ou pior, cometer crimes como forma de deitar as mãos a este valioso produto.

 

Pau-rosa Aniba Rosaeodora

De mobília a fragrâncias, a madeira proveniente da selva, e que é comumente usada na construção de violinos e balcões de cozinha, está pronta para a reforma. A CITES - Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção - exige, no mínimo, uma regulação apertada sobre o Pau-Rosa, se não mesmo a proibição total da sua comercialização.

Isto não impede que muitas empresas de óleos essenciais não tenham os seus truques. Em 2017, a Young Living, uma marca de óleos essenciais, veio a público admitir que comercializou ilegalmente óleo de pau-rosa. Foram multados em conformidade.

Embora isto não resolva o problema, podemos contar com a generosidade do Pau-Rosa. Mesmo quando cortada, a árvore regenera-se e volta a crescer. Isto significa que os produtores podem destilar o seu óleo utilizando apenas os seus ramos, garantindo a sua preservação no futuro, muito para além do aqui e agora.

 

YLANG YLANG Canaga Odorata

No mundo da perfumaria, o Ylang Ylang é famoso pelas suas propriedades duradouras e profundamente florais. Mas obter o melhor óleo não é fácil. Supostamente, há vários níveis de óleos de Ylang Ylang. Estes níveis vão desde o mais alto, "Nível Extra", até ao mais baixo, "Nível III". Mas, na verdade, encontrar um óleo de Ylang Ylang de nível máximo no mercado é coisa rara. Podemos assim dizer que este é, provavelmente, o óleo mais adulterado na perfumaria. Isso pode dever-se ao facto de muitas empresas usarem um óleo de um nível mais baixo, óleo de Cananga (uma alternativa mais barata), e até mesmo, se os rumores forem verdadeiros, anticongelantes.

Originalmente da Indonésia, podemos encontrar a árvore Canaga Odorata em Madagáscar e no Arquipélago das Comores, que estão, atualmente, no centro da indústria desde óleo essencial. Nas Comores, esta mesma indústria pode estar a causar o seu próprio desaparecimento através da desflorestação, usando a madeira local para acender o fogo necessário ao funcionamento das destilarias rudimentares.

A desflorestação é ainda provocad pela limpeza das terras para plantação da árvore de ylang ylang. Encontrar um equilíbrio e harmonia não está a revelar-se tarefa fácil.

 

VANILINA

Não é baunilha, mas podia. Devido à escassez da baunilha, podemos encontrar uma série de alternativas. Se se produzir baunilha corretamente, se for curarada ao sol durante semanas, e se for tratada como se fosse um recém-nascido, talvez se tenha a sorte de encontrar uns pequenos cristais de pura e alva vanilina nas suas vagens. Uma baunilha coberta por cristais de vanilina é uma baunilha da mais alta qualidade.

No entanto, a vanilina pode ser produzida sem a baunilha, recorrendo a métodos naturais e químicos. Podemos mesmo converter a polpa das árvores em vanilina, o que explica aquele cheiro doce que se solta enquanto folheias um livro. De qualquer das formas, a indústria da vanilina é forte e representa um papel fundamental na produção de notas de baunilha baratas para aromas e perfumes.

 

METILIONONA

Às vezes, a natureza derrota até o mais brilhante dos perfumistas, e no caso das violetas, a natureza ainda leva vantagem. O seu doce aroma não pode ser capturado de mais nenhuma forma, e a Alfaisometilionona (ou Metilionona) é o químico com o cheiro mais parecido. É um composto sintético seguro, incolor e com um cheiro poeirento, amadeirado e floral, muito usado pela cosmética e perfumaria quando se quer reproduzir o aroma a violeta.

A alfaisometilionona é um composto sintético seguro bastante usado em cosmética e fragrãncias para reproduzir o aroma das violetas, com um toque doce e empoeirado. Descobertas em 1893, por Ferdinand Tiemann, as iononas revolucionaram o mundo da perfumaria, ao permitir a criação de alternativas a óleos florais raros ou voláteis. Atualmente, são usadas nas mais diversas formas, sendo a Alfaisometilionona a mais comum em fragrâncias - desde detergentes a cosméticos.

 

ALMÍSCAR SINTÉTICO

As células sexuais podem não ser a escolha óbvia para uma fragrância, mas ao longo da história foram utilizadas regularmente. As glândulas, procuradas pelo seu aroma único, eram retiradas da zona genital dos veados almiscarados, mortos de forma cruel, propositadamente para o efeito. Felizmente a tecnologia evoluiu, e atualmente, a maioria dos almíscares utilizados é produzido em laboratório.

Mas, como sempre, a história não acaba aqui, e foi provado que alguns almíscares sintéticos são prejudicais ao meio ambiente, através da bioacumulação em rios e lagos. A Lush escolhe cuidadosamente os sintéticos que utiliza de forma a garantir que são seguros de utilizar e não têm um impacto negativo em ecossistemas, animais e humanos.

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