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Dá que falar - com Ana “Go Slowly”

Desde que se lembra, a Ana sempre teve inclinação para se preocupar com o ambiente.  Ainda pequena, reunia os amigos e vizinhos para apanhar o lixo do jardim. Sempre preocupada com questões como a reciclagem e minimalismo, há cerca de um ano e meio leu o livro de Bea Johnson e sentiu que o próximo passo e grande desafio estava à sua frente.

Com o avançar da procura por um estilo de vida sem desperdício, acabou por tentar encontrar pessoas em Portugal que partilhassem da sua vontade. De entrar em contacto com quem geria a página Zero Waste Portugal, até à ideia de criar um grupo de partilha foi um pulo e, já em início de 2017, acabaria por ficar a gerir a mesma. Ana tem energia a mais e adora desafios – não tivesse ela batizado o seu blog de “Ana, Go Slowly” para se relembrar que tem de andar mais devagar! – por isso, todos estes desafios foram agarrados como oportunidades e deitadas as mãos à obra.

“Começar por onde é mais fácil” é o conselho que deixa a quem quer dar passos para uma vida sem desperdício e fazer menos lixo. No seu caso, olhou para o lixo que tinha em casa – reciclagem incluída – e reparou que tinha imensas toalhitas que usava com o cão. Pegou em t-shirts velhas e fez toalhitas e assim teve uma diferença enorme de imediato. Daí passou aos lenços de assoar e guardanapos em tecido, bem como ao eliminar de uma bela fatia de embalagens relacionadas com comida. Tomou a decisão imediata de começar a usar sacos de pano e a comprar a granel tudo o que conseguia.

“Então e o lixo orgânico? Também conta?”, perguntamos nós. A Ana diz que sim; reúne o seu lixo orgânico e leva-o aos agricultores a quem compra todos os seus vegetais. Boa ideia, para quem não pode fazer compostagem em casa!

O avanço tecnológico e a melhoria das condições económicas levaram a que nós, sociedade em geral, tivéssemos cada vez menos preocupação em reutilizar, ou em comprar e usar coisas que não se estraguem facilmente – este avanço trouxe também muitas embalagens que deitamos fora após uma única utilização. De acordo com a visão da Ana, temos aqui “uma oportunidade de voltar um pouco atrás e aprender com as gerações anteriores”: como faziam quando não havia sacos de plástico em todo o lado? Como guardavam a comida? Como reutilizavam os panos, os tecidos? Todos nós nos lembramos (pelo menos quem ainda nasceu no século passado, vá!) dos sacos do pão, dos guardanapos de pano, de comer “roupa velha” e desta nos saber pela vida. Ana complementa ainda que “há alguma aversão ao voltar às coisas de pano” precisamente porque já não as sentimos como necessárias, visto que à época muito disto se fazia por razões económicas. Hoje em dia, Ana e muitos outros que escolhem este estilo de vida, fazem-no pois sabem como está o nosso planeta, esperando estar a proporcionar melhores dias às gerações que vêm depois de nós. “Não é sinal de pobreza, é mesmo porque é mais sustentável” remata.

Sabemos que não é um movimento fácil, este de deixar de produzir lixo. Perguntámos então à Ana quais foram os passos mais difíceis. “O que é mais difícil é que nós não vivemos sozinhos!”, disse Ana em tom de brincadeira, lembrando que nem todos que os que nos rodeiam podem ou querem levar esta mudança tão a fundo. Confessa que teve de ceder ou adaptar em algumas coisas e que, nos casos em que não é mesmo possível obter sem embalagem opta “pelas (embalagens) muito grandes, por vidro ou papel” - mas nunca deixa de procurar alternativas! “Temos mesmo de pensar ‘qual é o mal menor’” e acrescenta que, para certas coisas, deixou simplesmente de as comprar. Após estes cortes na compra, “por vezes podemos ver que estávamos a ser um pouco radicais e voltamos um bocadinho atrás, ou então acabamos mesmo por perceber que não faz falta”.

Ana é também adepta do minimalismo, estilo de vida que descobriu em 2011. “Houve muita coisa que comecei a questionar: será que isto faz sentido?”. O rolo de papel de cozinha, por exemplo, achava imprescindível até que deixou de o usar de todo – escorre os fritos numa grelha de metal, por exemplo. Refere que com a correria do dia-a-dia, as comodidades que surgiram com o passar dos anos acabam por parecer facilitar, e que “há muita coisa que fazemos porque simplesmente nos entra na vida, não pensamos e é tudo automático”. Refletir sobre o que usamos e como usamos, pode-nos levar a concluir que muita coisa não nos faz, de facto, falta.

Como motivação que daria a quem pensa começar a ter um estilo de vida sem desperdício, ou apenas a diminuir o mesmo para começar, Ana refere mais uma vez o planeta em que vivemos: “Estima-se que em 2050 haja mais plástico que peixe nos oceanos” - e nós concordamos que isto deveria chegar para perceber que temos de mudar. Mais ainda, refere que percebeu também ao longo do tempo que, na busca pelo desperdício zero, acaba por gastar menos dinheiro, por comprar coisas mais saudáveis e até de ganhar tempo. “Pode parecer que dá muito trabalho e que será mais cómodo usar tudo o que há ao dispor, mas querer ter tudo e sempre a última moda, é uma coisa que nos consome tempo. Gasta-se tempo a comparar com os outros, a ver sites e revistas”, em correr atrás do ter pelo ter. Ana diz que se passa a ter “uma vida com mais propósito, sentes-te mais parte de um todo. Não só do planeta, mas a ligação com o vizinho ou a pessoa da loja que já te conhece porque tens de explicar porque não queres saco”.

Há cada vez mais lojas a granel, por isso quem quiser começar hoje tem a vida mais facilitada. Também existem cada vez mais pessoas a fazer o mesmo, por isso “se tivermos dúvidas, há sempre alguém a quem perguntar ou procurar em grupos nas redes sociais, não nos sentimos sozinhos”. Há hoje, sem dúvida, uma verdadeira comunidade que vive e partilha este estilo de vida, “já não nos sentimos uns ETs!” diz-nos Ana entre risos.

As mudanças vão levar o seu tempo e o que a Ana tenta ao fazer a sua parte como embaixadora do movimento Zero Waste Portugal é mostrar que “não é por trazer uma coisa sem embalagem que ela se vai estragar mais depressa ou que tem má qualidade”. Refere ainda que a reciclagem deveria ser a ultima alternativa, caso não haja opção sem embalagem, e não a solução para todos os males das embalagens. Embora já não faça compras em grandes superfícies como hipermercados, recomenda “mostrar um ar confiante” como possível chave para abordar a questão dos plásticos nas zonas dos vegetais e fruta. “É preciso não ter medo de ser diferente e nem sempre é fácil”, não há que ter medo de levar sacos de casa quando se vai às compras, ou colar a etiqueta do peso no ananás - tudo o que seja mais simples pode ajudar a dar os primeiros passos.

Vamos a isto?

 

Ana Milhazes Martins, é autora do blogue Ana, Go Slowly https://anagoslowly.blogspot.pt/, fundadora do grupo Lixo Zero Portugal https://www.facebook.com/groups/LixoZeroPortugal/ e embaixadora do movimento Zero Waste Portugal https://www.facebook.com/zerowasteportugal/

Os nossos agradecimentos à Ana pelo tempo e generosidade em partilhar este momento de conversa connosco!

 

Ana Go Slowly
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